Águas do Sul

bota

Eu tinha conhecido um cara muito estranho no último ano. E, no último ano, tudo parecia ser mais real, talvez por saber que logo estaria longe de tudo e de todos. Voltaria em breve para São Paulo, e depois eu me mudaria para Buenos Aires.

Estudávamos Comunicação Social na UFSC, quando nos conhecemos. Minha namorada era amiga da namorada dele. O cara era um prego. Estranhão. Sabe aqueles caras que não recusam comida nenhuma? Que pegam carona com todo o mundo, entram de bicão em qualquer festa? Era o próprio. Meio rude, meio bobo.

Meu otimismo morria a cada dia, pois chegava o fim do “sonho do sul”, uma vida boa que estava por acabar, por se transformar sabe lá no quê. Fora contratado por El Periodico como redator esportivo. Que beleza. Visitaria todos os estádios possíveis. A cidade lá é bem mais saborosa, cheia de vida interessante para descobrir.

Poxa, e minha namorada? O que seria de nós? Não quis saber, sei que fiz o que pude, tentei de todos os jeitos, vivi cenas de cinema. E consegui achar uma forma de levá-la comigo às terras do tango.

E os colegas, amigos, as tias dos botecos, os hippies das praias? Ficariam guardados para sempre, quietinhos dentro da caixa de cartas, bilhetes e fotos.

Sei que era dezembro e logo chegou o dia, o último dia. Despedidas lá e cá, beijos, abraços e lá fomos nós. Eu e minha namorada rumo à Sampa. Mas faltava alguma coisa além daquele processo chato e triste da despedida.

Olhei ao redor, as malas faziam a mesma coreografia da noite anterior. Havíamos entregado todos os cartões, devolvido os CDs… ah!

Como pude esquecer-me de Anesquésio!? O cara muito estranho, meu velho amigo. Aquele mesmo, o estranho namorado da amiga da minha namorada.

Puxei o freio de mão com força, uma manobra de efeito especial digno de prêmio. Rodamos quase meio dia atrás do penetra, mas só o encontramos à noitinha. Estava jogando dominó com os caras no velório do Tonico, o velho do bar Pelotas do Paraíso. Não é que o camarada estava numa boa, festejando a morte do padrinho.

Bem, ficamos mais um dia, o que nos prendeu por mais uma semana. Quando vi, estávamos em janeiro, bem no finalzinho. Ah! Sul da minha vida.

Ficamos três meses na Argentina; não suportamos a saudade. Hoje moramos em São Paulo, e voltamos à Floripa a cada três meses, onde escrevo minhas melhores crônicas.

(Mauro, dezembro de 1998)

Foto: Arquivo Pessoal/Mauro

Somos um grupo secreto. Nosso objetivo é, secretamente, contribuir para fazer do mundo um lugar melhor. Somos todos personagens alter-egos do jornalista Rodrigo Rezende e mais algumas coisas. Para falar com ele, mande um e-mail para papelvegetall@hotmail.com

Anúncios

Um comentário sobre “Águas do Sul

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s