A puta da Lagoa

puta

Não há lugar melhor para uma conversa da madrugada. A Lagoa.

Dizem as velhas obras literárias que à noite saem aos passeios bruxas e vampiros. Todos os maus tragos são da noite. Saem a fazer pândegas e estragos, e são boêmios natos.

As ciências não provam ainda, todavia, que boêmios são esses baderneiros, mas pândegos da noite são tragos do mal. Os ladrões, as bichas, os bêbados, todos os tragos.

E a noite lembra a Lagoa. A puta da Lagoa.

A santa Lagoa da Conceição, o lugar perfeito, a madrugada certeira, o paraíso. Lá estávamos a andar voltas retilíneas rumo à imensa escuridão que nos levaria à Joaquina. Sabíamos de todo o poder daquele caminho.

Não havia medo, não havia tragos, não havia nada, e pronto. Havia magia e amor. E a puta dizia que sonhava – a puta nem era tanto puta.

Eu, que bandida e escandalosamente desconfiava até de formigas, cheguei a imaginá-la como um trago. Que porra de trago nada!

Era puta, conforme a vida; era moça bonita acima de tudo.

Seus ainda 20 e poucos anos traziam-me prazer, sua voz doce, leve, o tom de menina.

A Lagoa está bela hoje. Eu aqui novamente, esperando a morte, ainda a lembrar de conversas. Fui feliz naquelas madrugadas, a puta transforma-se em moça bonita. E não se passaram muitos anos para que eu aqui estivesse mais uma vez. Aliás, venho quase todos os dias.

Aqui me apaixonei, aqui amei. A Lagoa.

A puta? A puta se foi.

O aquartelamento foi mágico, pois aqui sonhei em viver, e por aqui estou ainda a escrever-lhe. Um lugar e tanto para um vagabundo que rodara o mundo todo, pois já que está à beira-mar.

Sei que estás no céu moça, sei que estás na Lagoa talvez. Por aqui anda tudo bem, como antes, como sempre. Deus, além do mais, vive entre nós, ora por aí, ora por aqui.

A puta era tão pura, conversávamos sobre tudo do nada. O nada que quase estou, que quase fui, mas que não era enquanto pude contigo viver, a puta.

(por Mike, 1999)

Foto: Stefan Hellwig

 

Somos um grupo secreto. Nosso objetivo é, secretamente, contribuir para fazer do mundo um lugar melhor. Somos todos personagens alter-egos do jornalista Rodrigo Rezende e mais algumas coisas. Para falar com ele, mande um e-mail para papelvegetall@hotmail.com

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