Soraia, não me mate

janela

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Soraia! Soraia! Soraia!

Soraia! Soraia! Soraia!

Soraia! Soraia! Soraia!

Gritava desesperadamente o homem magro que subia a rua. Ria e chorava ao mesmo tempo, intercalando gritos que ecoavam na calada da noite. Tênis preto, jeans puído, camiseta branca do Jefferson Airplane.

Da minha janela, eu tinha um ponto de observação bem localizado, na região sul da rua. Coisa de bacana. E a iluminação era de primeiro mundo naquele trecho nobre da rua Pires. Os detalhes brilhavam.

Soraia! Soraia! Soraia!

Soraia! Soraia! Soraia!

Soraia! Soraia! Soraia!

Desfilava em grande estilo, o homem em seu monólogo aparentemente sem plateia. Lobo solitário.

Daí que ouço um ‘tá’, seco. Um tiro, apenas um. O homem, que não passava dos seus trinta anos, caiu no chão, alvejado na cabeça sem misericórdia.

(Parte II)

A polícia chegou, mas nenhum vizinho arriscou-se a aparecer na rua. Eu continuava na janela, de um ponto cego, do qual eu observava sem ser notado. Ninguém descobriu de onde viera aquela bala. Quem teria assassinado o pobre magrelo que clamava por ajuda, por Soraia?

Passaram-se cinco dias. Como eu trabalho com traduções, não saio de casa. Não saio do quarto praticamente. E de lá observo tudo que acontece na rua Pires. Fiquei sabendo na fofoca do bar da esquina que a investigação policial não tinha chegado a uma conclusão. Sequer tinha um suspeito na manga.

No sexto dia, o portão da casa 208 se abriu. Uma casa que estava para alugar havia meses. Casa em que a polícia entrara no dia em que o homem magro dançava sua última valsa. A canção da morte. De lá, saía uma senhora toda maquiada, vestido brilhante, bolsa e sapatos combinando. Uma perua velha, sem qualquer sinal de que tentava sair à francesa da minha rua.

Ela olhou para minha janela naquele momento. Fixou o olhar por alguns segundos. Acenou para mim, meio que disfarçando o que fazia, e que me via. Naturalmente, borrifou um perfume, já na calçada, e seguiu em direção ao norte. Soraia, provavelmente ela, sumiu, e eu nunca mais a vi.

Por tempos imagino que ela é a assassina. Provavelmente Soraia. E sempre que saio, às vezes quando saio de casa, olho para cima e para baixo antes de pisar a calçada com os dois pés, com medo que Soraia apareça. E rogo em prece íntima, silenciosamente: “Soraia, não me mate”.

(por Mauro)

Foto: Marcelo Terraza

 

Somos um grupo secreto. Nosso objetivo é, secretamente, contribuir para fazer do mundo um lugar melhor. Somos todos personagens alter-egos do jornalista Rodrigo Rezende e mais algumas coisas. Para falar com ele, mande um e-mail para papelvegetall@hotmail.com

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3 comentários sobre “Soraia, não me mate

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