Cheiro de rua

rua (2)

Nomeia-se de estático o estado de um cidadão urbano quando ele está de cotovelos sobre o carro, parado, olhos abertos, mas sem foco destino. Quase que fora de si. Cita-se a rua por bobeira, pois não há necessidade. Poderia ser aí, onde você está.

Acontece, então, algo invisível, a princípio imperceptível a olho nu. Ocorre uma combustão psicológica. Nada de estático possui o cidadão, aliás, em rotineiro funcionamento. Seu sistema respiratório transporta o monóxido aos pulmões, tanto do ambiente, quanto do cigarro posto entre os lábios. O sistema do sangue irriga as partes menores, deixando-as à temperatura ideal.

Como naqueles filmes que “rebobinam” a fita, trazendo as imagens do avesso cronológico, temos melhor condição para sentir o estado do cidadão. Gostaria de fazê-lo sentir e não só entender, aí fora desta tela. A descrição adequada seria uma “pressão” forte, fazendo o sangue ferver.

O negro do outro lado da rua, dentro da Perua preta, possui uma arma automática, pois é um assaltante de banco. Na mala do carro está o corpo de um empresário, tido como morto, sumido há dois dias. O rapaz de sapato verde que desce a rua é um escritor, quando mais parece um contínuo. A velha abrindo o portão lembra a tia Nélia, mas é a mãe do goleiro da seleção brasileira de futebol. O que importa? Para o taxista que atravessa o cruzamento, não passa de uma velha.

Lá no bar, Marcos Pia almoça frango. É o redator da opinião de um grande jornal, o articulista oculto dos editoriais.

A rua Fidalga funciona como uma fotografia, cheia de elementos. Tantas glórias e diversões em suas esquinas. Cervejas e histórias da memória; quase completa, às vezes perdida.

Faz 32 horas que não dorme, não deita a 180 graus, não para. O cidadão, entretanto, absorve a manhã. Suspende o trabalho, como as mangas Pierre Cardim. O cidadão estático só não para de pensar. Inspira a fumaça morna que vem do asfalto, com cheiro de chuva e gosto de rua Fidalga, o palco de seu espetáculo, embora sem plateia.

O cidadão ouve a música fúnebre (para ele) – erudita para nós – do restaurante japonês, novo no pedaço. Desperta dos sonhos, já que a canção nada tem de relação com as suas lembranças do passado.

Acende outro cigarro, toma uma pílula vermelha e volta para casa, elaborando o seu plano na mente. Havia um cheiro de rua.

(por Mauro – anos 90)

Foto: Juan Croatto

 

Somos um grupo secreto. Nosso objetivo é, secretamente, contribuir para fazer do mundo um lugar melhor. Somos todos personagens alter-egos do jornalista Rodrigo Rezende e mais algumas coisas. Para falar com ele, mande um e-mail para papelvegetall@hotmail.com

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7 comentários sobre “Cheiro de rua

  1. Abstrair todos esses recursos sensoriais do cotidiano é a forma mais “poética” de viver em uma metrópole. Acredito que Mauro deva ser de SP. E que a sua personagem também. Gostei bastante do texto. Muitas vezes me pego pensando nisso. E no cheiro da rua. Um abraço.

    Curtido por 4 pessoas

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