A geladeira do poeta e o político

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(ANTES DE COMEÇAR A LER, UMA SUGESTÃO: DÊ PLAY NO VÍDEO ABAIXO. VALE PARA ACOMPANHAR O TEXTO E, DEPOIS, DEIXAR ROLAR NA VITROLA)

 Pouco a pouco a minha morte vai se tornando um fato verdadeiro. Eu que sempre a temi, desde os tempos de criança, quando já me faziam preocupações as casas de velório. Sempre que passava por uma, e eram tantas, não deixava de pensar um pouco sobre o meu dia, que cedo ou tarde viria.

De fato, parecia um acontecimento normal. O povo passava perto, mas continuava seu caminho. Afinal, não havia segredo, apenas um corpo morto numa caixa de madeira.

E se o defunto mal era conhecido por parentes e amigos – assim somos numa capital urbaníssima –, imagine por alguém que por ali estava de passagem. Um anônimo.

Mas veio a guerra, a devastação, e todos habitaram velórios provisórios, futuros cemitérios: as ruas, as ruínas dos lugares todos.

Em grupos nômades, nós íamos levando. A sobrevivência tornou-se única atividade de grande importância. Intergalacticamente, estávamos sendo rebaixados, quando estivéramos perto dos planetas adultos vizinhos. A pré-história vivia sua renascença.

Dos poucos sobreviventes, conheci duas pessoas das quais não poderia deixar de escrever, pois foram amigas e cuidadosamente lapidadas por Deus. Seus destinos, porém, lhes premiaram estranha e antagonicamente.

A guerra destruíra tudo, levando consigo as geladeiras do planeta. Não faço brincadeira, não. A verdade é que não se achava nenhuma inteira. Aliás, de nada serviriam sem energia elétrica, sem energia alguma.

E mesmo se a conseguíssemos, não haveria novo inventor do equipamento. Nunca se pensou que um dia as geladeiras seriam extintas, então não fizemos curso algum sobre elas, sequer recordamos o seu funcionamento, nomes de gases e engenharia. Pelo menos nós redatores, a maioria dos que sobraram, junto com as baratas.

O poeta vive numa cabana onde há uma velha geladeira, mas sem a maioria dos apetrechos de dentro. Sem comida, sem bebida. Assim, tornara-se um móvel de riqueza memorável. Dentro dela estão livros e as artes escritas do artista, que também produz pinturas e umas esculturas que lembram frascos de alimentos.

Faz de sua geladeira um altar, um templo de criatividade e inspiração. Lamenta, é claro, não poder mais gelar o seu vinho, mas adapta-se tranquilamente. E até aprendeu a fazer uma espécie de rum de plantas. Tão quente, que gela a alma.

Quando abrimos a porta dessa geladeira, logo vemos uma placa brilhante colada aos fundos, que produz um brilho lindo, refletindo cores diversas misturadas ao ouro e à prata. Parede feita de cartões de crédito, já sem função. A guerra não perdoara os bancos e empresa alguma. Obra muito bonita, embora faça me lembrar de outro amigo, de seus cartões de crédito e salários, suas ações e propriedades. Perdera tudo.

O pobre amigo político, entretanto, morreu na tarde de ontem. Resistiu à guerra, mas não à monotonia. Lutou tanto contra o estresse para manter-se atento aos negócios – vaidades materiais e ornamentos que perderam força no momento em que ele foi exigido a experimentar a vida livre, sem livre mercado, meio ao socialismo nômade.

O seu velório estava vazio, e me arrepiou passar por lá. Aos 117 anos, depois de três grandes guerras planetárias, eu não resistiria ao medo de velório, então corri desesperado dali.

(por Mike – anos 1990)

Foto: Selin Estroti

Modificada ligeiramente por: Rodrigo Rezende

 

Somos um grupo secreto. Nosso objetivo é, secretamente, contribuir para fazer do mundo um lugar melhor. Somos todos personagens alter-egos do jornalista Rodrigo Rezende e mais algumas coisas. Para falar com ele, mande um e-mail para papelvegetall@hotmail.com

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