A feira que acabou com a Terra

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(POST COM TRILHA SONORA TUDO A VER. NÃO PERCA)

Cheguei da feira com a camisa toda rasgada. Um velho maloqueiro tinha arrumado uma baita confusão comigo. Filho da puta. Eu disse pra Silvia. Fui tomar banho ainda com raiva de tudo.

No carro, a caminho de Santo Amaro, eu não parava de falar mal daquele gordo nojento. O velho se livrara de apanhar porque tinha muita gente no Ceasa e também porque eu sou um cara de bem. A Silvia não aguentava mais. O que a salvava naquele momento, acredito, era o The Eternal, disco do Sonic Youth que inaugurava o nosso novo rádio do carro.

Eu estava tenso demais, tinha brigado com um velho estúpido na feira, estava com dor de cabeça, cansado e ainda iria perder o jogo de basquete. Mas a causa era boa, pelo menos no ponto de vista da Silvia. Tinha chegado o dia de eu conhecer o meu futuro sogro.

Chegamos à casa dos pais dela. A mãe eu já conhecia, então aproveitaram para me colocar em uma bateria sem fim de cumprimentos. Primo, primas, tios, tias. O quintal estava cheio, todos à espera de um prometido polvo galego, prato típico da região da Espanha onde a mãe da Silvia nascera.

Tinha até me esquecido daquela manhã de fúria. Estava beliscando a entrada, um gazpacho maravilhoso – sopa fria bastante consumida em Portugal e no sul da Espanha, mas que tem origem árabe. E por falar nisso, o pai da Silvia tem origem árabe. Ela sempre me conta umas histórias.

Então que ouvimos um barulho no portão da frente da casa, que mais parecia um castelo. O seu Omar tinha chegado. Confesso que fiquei um pouco nervoso. Afinal, dentro de poucos minutos eu seria o alvo das atenções daquela torcida que já sinalizava embriaguez.

Quando o seu Omar entrou no quintal, parecia que o mundo tinha sido atingido por um tremendo meteoro: a destruição final. Omar, o árabe, o patriarca, o meu futuro sogro, o pai da Silvia. Eles todos eram o mesmo velho filho da puta que tinha brigado comigo na feira.

(Por Niko)

Foto: Can Berkol

Somos um grupo secreto. Nosso objetivo é, secretamente, contribuir para fazer do mundo um lugar melhor. Somos todos personagens alter-egos do jornalista Rodrigo Rezende e mais algumas coisas. Para falar com ele, mande um e-mail para papelvegetall@hotmail.com

 

 

 

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4 comentários sobre “A feira que acabou com a Terra

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